cárcere privado

Li a notícia de que o Boy George foi preso essa semana, em Londres, acusado de manter preso e acorrentado um garoto de programa. O rapaz contou que foi contratado por Boy George através do site Gaydar e que enquanto esteve preso foi ameaçado pelo cantor e um amigo com chicotes e vibradores.
Eu não entendi uma coisa no relato da vítima…ameaçado por que? Ou para que?
Depois, o bom moço disse que conseguiu escapar fazendo um buraco na parede.
Que???
Leia a notícia aqui.
Isso me fez lembrar do filme Ata-Me de Almodóvar. O cineasta foi o máximo ao colocar na telona o que todos nós sentimentos quando amamos. Queremos prender, amarrar, acorrentar, algemar nosso amor para evitar que ela vá embora. Que vire a esquina e se apaixone por outra, que nos troque pela amiga da amiga, que mate as saudades da ex e etc.
Amor é posse!
É cristão demais para mim a idéia de “que eu te amo tanto e só quero a sua felicidade, mesmo sabendo que não será ao meu lado”. Se não vai ser ao meu lado, foda-se! Vá viver sua vida. Eu vou sofrer pra caramba, afogar de tanto chorar, falar mal da figura até não poder mais. Depois que a raiva passar, a vida vai voltar ao normal.
Essa idéia de que quem ama de verdade prefere que a pessoa seja feliz até mesmo com outra é altruísta demais para qualquer ser humano. A gente pode lamentar, aceitar, se adaptar. Mas, achar que o amor é tão sublime assim é ir contra a nossa natureza. É ficar rendido a cultura judaico-cristã.
É acreditar que o amor não é um bem valioso. Que ele pode ser desperdiçado com que não nos quer em nome de algo maior e inventado. Culturalmente respeitado e incentivado para que possamos ser caracterizados como boas samaritanas.
Pura besteira! Somos animais marcados por instintos. Todas as fêmeas na natureza disputam espaço, defendem a prole e seus machos. Só nós que não? Nascemos quase divinos? Caridosos a ponto de abrirmos mão do nosso amor e objeto do desejo?
Não é pra sermos neuróticas obsessivas e infernizar a vida da ex porque fomos trocadas. Não é para sacanear nem avacalhar a vida da figura. É apenas legítimo sofrer, chorar, lamentar, jurar vingança, ficar irada, rasgar as fotos, quebrar os CDs e deixar a dor sair. Seja ela raivosa, tristonha, lamuriosa.
Meu amor não brota em árvore, não dá em pencas. É artigo raro e valioso. Não aparece a todo instante, não surge para qualquer uma. Por que então vou tratá-lo com indiferença e desprezo? Vou fingir que ele não existe só para fazer uma boa ação? Eu não!
Notas sobre um Escândalo

Temos assistido a vários filmes. Geralmente, no final de semana, Eu & Ela estamos exaustas da batida da semana. Temos curtido ficar em casa vendo DVDs.
Vimos Notas sobre um Escândalo há duas semanas. Não escrevi antes sobre o filme por falta de tempo mesmo.
Quando lançaram, ouvi comentários de que era um filme lésbico “enrustido”. De certa forma é e não é. Porém, acima de tudo é um filme sobre o desespero a que as pessoas podem chegar decorrente da solidão humana.
Não vou contar a história porque tem gente que ainda não viu o filme. E não é isso que me chamou a atenção na trama.
Em primeiro lugar estão as majestosas atuações de Judi Dench e Cate Blanchet. Perfeitas! Lindas!
Judi Dench é uma das melhores atrizes do cinema mundial atualmente. Cate Blanchet também é muito boa. Quando se junta ótimas atrizes com um excelente roteiro se faz arte!
A personagem Barbara (feita por Dench) angustia a todas nós. A que ponto pode chegar uma velha lésbica a procura de companhias jovens e bonitas? Até que ponto algumas atitudes são atos de”loucura” ou de “cretinice”?
Não há como deixar de pensar na Lei do Biscoito Tostines: Barbara é solitária por que é louca? Ou é louca por que é solitária?
No que a vida (e nossas escolhas) pode transformar a todas nós?
Todas temos um “que” de Barbara. Todas! Qualquer ser humano sente uma certa amargura por estar de “fora” da festa. Todas nós queremos que nosso objeto do amor só tenha olhos para a gente. Que nós possamos ser o seu mundo. Todas nós criamos “historinhas” para justificar nossos atos. Todas nós temos um “diário” mental onde escrevemos nossas verdadeiras opiniões sobre o filho da amiga, a colega do curso, a amiga da amiga e outros. A Barbara é a ácidez que habita em nós. É o limão azedo que engulimos nas relações. É a porrada da vida: quando, por n razões, perdemos a pessoa amada.
A única diferença entre a nossa quantidade de Barbara e a personagem do filme é que no dia seguinte, a gente levanta e recomeça. Dá um jeito de relevar se o filho da amiga é isso ou aquilo, tenta se convencer que a colega do curso pode ter suas qualidades, tenta arrumar um convite pra festa da vida e vai procurar um outro objeto do amor. As Barbaras ficam. Estacionam. São como aranhas. Ficam esperando a mosca se distrair durante o vôo e ficar agarrada na teia. Vendo que os alvos estão totalmente enrolados nos fios, elas começam a ir na direção do inseto. O inocente bichinho, naquele momento, não sabe que será engolido pela aranha. Porém, quando ele menos imagina, ela a prende com suas patas e o arrasta de uma vez só. Não há possibilidade de fuga. De sobrevivência. Ela pega para matar.
Assim são as Barbaras da vida. O mundo está cheio delas. Pessoas que foram totalmente corroídas pela amargura e se tornam perversas. Não no sentido de má, mas são pessoas que passam a achar que podem tudo, já que os outros têm. O pervertido é o que não entende a ética e a moral como os outros. Ele perverte esses códigos. Cria outros, particulares, para inserir no lugar. Isso acaba por justificar todas as suas atitudes.
O importante é não fingir que nossa Barbara existe. Calar a voz dela dentro de nós. Ela existe, está aí e precisa ser olhada, cuidada, administrada. Para que não inche, transborde e queira o que ela não tem. Doa a quem doer. Passando por cima de tudo e de todos. Inclusive, de nós mesmas.
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