Varal de Idéias

de tudo um pouco: sem normas, regras e padrões

Desejo e Reparação

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Em 2000, eu li “Reparação”, do inglês Ian McEwan, assim que foi lançado aqui no Brasil. Já muito interessada nas possibilidades da mente e do inconsciente, amei o livro.

Foi uma grata surpresa vê-lo nas telas. O filme é belíssimo e merece o Oscar.

O filme é lindo. Figurino, cenário, fotografia, roteiro, atores e a total fidelidade ao livro.

A dupla Joe Wright (diretor do filme) e Keira Knightley bate um bolão. É ótimo ver como um casamento entre um diretor e uma atriz produz grandes cenas. Joe e Keira trabalharam juntos pela primeira vez em “Orgulho e Preconceito”.

Não vou contar a história para não estragar a surpresa. O que fica é quanto qualquer um de nós podemos destruir a vida de uma pessoa usando nossas fantasias mais ocultas. O quanto palavras levianas produzem consequências desastrosas. O quanto nossos desejos são mais fortes e mais reais do que a própria realidade.

Somos todos, sem exceção, assassinos em potencial. Não se mata apenas com armas. Mas, os maiores e mais maldosos crimes acontecem assim. De maneira silenciosa, quase oculta, quase como um brincadeira de criança. Sem pensarmos, fazemos/acusamos/falamos.

E o resto é apenas consequência desse momento.

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Fevereiro 11, 2008 Publicado por Mari | cinema, filmes, literatura | | 1 Comentário

Vale Tudo


“só não vale dançar homem com homem
nem mulher com mulher
o resto vale!”

Tim Maia cantava essa música nos programas de TV. Mas, nos shows ao invés de cantar “o resto vale”, ele dizia “só até as 22hs”.

Tim era assim. Libertário, libertino e muito, muito doidão. Ele não sabia o que era autoridade. Só tinha medo dos flagrantes da polícia diante de tanto bagulho e pó que carregava. Uma das poucas pessoas por quem Tim tinha respeito era o amigo “nelsomotta”.

O livro “Vale Tudo – o som e a fúria de Tim Maia” é uma delícia! É daqueles que não dá para parar de ler. Virou o cult desse comecinho de verão para mim. Nada mais carioca do que Tim Maia e suas músicas.

Nelson Motta foi muito generoso com o amigo. Das bad trips de Tim, ele pouco fala. Ficamos mais com a dor de cotovelo e as doideiras desse que para mim é dos maiores cantores da MPB. Dos que já se foram, são poucos os que tenho saudade: Tim, Cazuza, Nara Leão, Tom Jobim.

Enquanto a (minha) geração coca-cola chora por Renato Russo (que eu detesto), eu sinto falta desse negão desbocado, de vozeirão rouco, meio cafona e dos gemidos quando a língua travava de tanta cocaína e do célebre pedido de “mais retorno, mais tudo”.

Como eu me esbaldei ouvindo as músicas do Tim. Ao ler o livro também fiz uma viagem nostálgica aos anos 70, 80 e 90. As noites do Morro da Urca, ao Circo Voador, aos grandes shows no Canecão e Scala, a boate People, ao surgimento do Casseta & Planeta, do estouro de Sandra de Sá, do aparecimento de Ed Motta e Marisa Monte. Ri ao tomar conhecimento das frases bombásticas de Tim e saber de infinitos canos em shows Brasil afora.

Chegando ao final do livro, comecei a sentir raiva. Deu vontade de gritar: “porra, seu burro! Pára com tudo que você vai morrer!”. Assim, a gente vai lendo página a página a vida de rock and roll do Tim. Muito bagulho, muita cocaína e muita birita. Sexo com putas. Tim adorava transar com elas. Dá angústia saber que o final de Tim está perto, enquanto ele está, no livro, cada vez mais doidão, mais aloprado, mais drogado e bêbado.

“Ah!
Se o mundo inteiro
Me pudesse ouvir
Tenho muito prá contar
Dizer que aprendi…

E na vida a gente
Tem que entender
Que um nasce prá sofrer
Enquanto o outro rir…”

O síndico do Brasil não era mole.

Janeiro 3, 2008 Publicado por Mari | arte, artistas, literatura, livro, música | | Sem comentários ainda

O amor nos tempos do cólera


De férias, calorão dos infernos, entramos no cinema e fomos ver o filme “O Amor nos Tempos do Cólera” de Mike Newell, baseado no livro homônimo de Gabriel García Márquez.

A história está muito bem contada. Javier Bardem e Fernanda Montenegro como mãe e filho estão ótimos. Vemos Cartagena do final do século XIX, na Colômbia, retratada com maestria e beleza. Achei um pouco incômodo o olhar inglês sobre os trópicos. Muito verde, folhagens enormes, um clima de selva, papagaios mas nada que comprometa o filme. Que se não é 100% fiel ao livro não deixa um gosto amargo na boca de estar sendo enganado.

A minha relação de amor com Gabriel García Márquez começou repentinamente. Assim, como um vendaval, um temporal de verão de final de tarde. Adolescente, inquieta, reclamona, fui chamada pelo meu avô para dar uma ajuda na arrumação da estante de livros dele. Acho que eu tinha 15, 16 anos. Dali, ele colocou em minhas mãos “Cem anos de Solidão”. Férias, Belo Horizonte, casa dos avós. Só parava de ler para comer. O frio do inverno mineiro ajudou no processo.

Conhecer Macondo e sua chuva ininterrupta mudou minha vida. O realismo fantástico de Gabo serviu como uma religião. Passei a acreditar no impossível não pelo místico, mas pela literatura. Varri a obra dele toda: “O amor nos tempos do Cólera”, “Ninguém escreve ao Coronel”, “Crônica de uma morte anunciada” (obra prima!!), “Cândida Erendira e sua avó desalmada”, “ O Outono do Patriarca”, “Doze contos Peregrinos”, “O amor e outros demônios”, “Viver para Contar”, “Como contar um conto”, “Notícias de um seqüestro”, etc.

Gabriel se tornou o amor da minha vida. Acho que devo a ele alguma contribuição pela escolha de ser jornalista. Nunca tive pretensões de ser uma escritora, mas sim de ser leitora. Uma leitora mais apurada, cada vez mais indagadora, profunda. Meu amor por ele é tão grande que dei seu apelido – Gabo – como nome do meu cachorro Boxer (que infelizmente faleceu há 2 anos).

Com G. G. M. tive a sensação de pertencimento a algo. Maior do que o meu pequeno mundinho. Aprendi que antes e acima de tudo sou latino-americana. Tenho minhas dúvidas se sou brasileira. Mas, não tenho dúvidas de que pertenço à América Latina. Não com um orgulho exacerbado, mas por identificação.

Decidi desbravar uma literatura que não é muito valorizada no Brasil, que tem sempre seus olhos voltados d’além mar. Entrei continente a dentro. Fui conhecer Mario Vargas Lhosa, Júlio Cortázar, Borges, Juan Rulfo, Pablo Neruda, Cabrera Infantes, Pedro Juan Gutierrez, Isabell Allende, Antonio Skármeta, Carlos Fuentes, Octavio Paz, Ángeles Mastretta, etc.

Vou indo. Já tive fases da literatura russa, francesa, italiana, alguns americanos, alemã, mas acho que nunca tive uma paixão tão grande por outros escritores como tenho por esses que escrevem sobre essa parte do mundo tão pobre, perversa, miscigenada, dramática, colorida, imaginativa, infantil.

Há tempos deixei de ver e sentir a literatura com todo esse ardor. Talvez, tenha sido a vida adulta, as perdas e dificuldades que vão engolindo a poesia, as mudanças, a saída do casulo. Mais do que pelo filme em si, hoje, nesta simples tarde de verão, tomei contato comigo mesma. Uma que já fui. Não foi algo nostálgico e ruim. Pelo contrário, foi bom saber que mesmo escondido, ainda há toda essa fantasia dentro de mim.

Dezembro 27, 2007 Publicado por Mari | arte, cinema, literatura | | 1 Comentário

Sem jabá!

Ontem, eu & ela fomos para a Bienal. Munidas de muita disposição e fome literária. Valeu o dia! Cansativo demais. Mas, foi bom ver a quantas anda o mercado literário no Brasil. Não sou caloura de Bienal. Muito pelo contrário. Mas, já gostei muito mais.
Não que tenha deixado de ler. Deixei de consumir livros. Antes, misturava as duas coisas. Ler estava relacionado a quantidade, as novidades, ao que ainda ia ser descoberto pelo grande público. Era uma orgia entre clássicos e novidades. Lia em um ritmo frenético. Diversas vezes, lia tanto que nem sabia o que estava lendo.

Com o passar dos anos fui amadurecendo e refinando meu gosto literário. Algumas paixões/taras continuam. A literatura Latino Americana é uma delas. Gabriel García Márquez continua sendo soberano para mim. Esse mergulho na literatura me permitiu ter o senso de latinidade que tanto me faltava. E que não costumamos ter no Brasil pela diferença entre as línguas com os países hermanos.

Quero deixar meus parabéns a Editora Summus. Foi a única editora que vi ter prateleiras dedicadas ao público GLS.

De resto, fica uma dica:
Há anos, lendo uma revista de literatura, ouvi falar de Angeles Mastretta.
Eu já tinha lido Isabel Allende de cabo a rabo. Queria uma outra voz feminina, com sotaque latino americano, que falasse para e de nós, mulheres. Depois de muito custo e a base de um livreiro amigo, encontrei “Mulheres de Olhos Grandes”. Ainda era o primeiro livro de Angeles publicado aqui.
Quem quiser se deliciar com contos com histórias deliciosas, por vezes trágicas ou tristes, sobre mulheres, fica a sugestão.

Boa leitura!

Setembro 17, 2007 Publicado por Mari | bienal, gls, literatura | | Sem comentários ainda

Dica…


Ainda não comprei o meu. Mas, não passa dos próximos dias. Para quem se interessar, basta clicar aqui.
Depois que ler, escrevo para contar.

Setembro 15, 2007 Publicado por Mari | gays, literatura, lésbicas, travestis | | Sem comentários ainda