Sinal
Ela deitada na cama, vendo jornal.
Eu no computador.
No intervalo, começamos a olhar o blog e a comentar sobre ele. Quando batemos o olho no número de visitantes, lá estava: 2008.
Juntas gritamos: é um sinal!!!
Para Ela de que o ano que vem por aí vai ser bom.
Eu já não sei, mas que é um sinal, isso é!
O amor nos tempos do cólera

De férias, calorão dos infernos, entramos no cinema e fomos ver o filme “O Amor nos Tempos do Cólera” de Mike Newell, baseado no livro homônimo de Gabriel García Márquez.
A história está muito bem contada. Javier Bardem e Fernanda Montenegro como mãe e filho estão ótimos. Vemos Cartagena do final do século XIX, na Colômbia, retratada com maestria e beleza. Achei um pouco incômodo o olhar inglês sobre os trópicos. Muito verde, folhagens enormes, um clima de selva, papagaios mas nada que comprometa o filme. Que se não é 100% fiel ao livro não deixa um gosto amargo na boca de estar sendo enganado.
A minha relação de amor com Gabriel García Márquez começou repentinamente. Assim, como um vendaval, um temporal de verão de final de tarde. Adolescente, inquieta, reclamona, fui chamada pelo meu avô para dar uma ajuda na arrumação da estante de livros dele. Acho que eu tinha 15, 16 anos. Dali, ele colocou em minhas mãos “Cem anos de Solidão”. Férias, Belo Horizonte, casa dos avós. Só parava de ler para comer. O frio do inverno mineiro ajudou no processo.
Conhecer Macondo e sua chuva ininterrupta mudou minha vida. O realismo fantástico de Gabo serviu como uma religião. Passei a acreditar no impossível não pelo místico, mas pela literatura. Varri a obra dele toda: “O amor nos tempos do Cólera”, “Ninguém escreve ao Coronel”, “Crônica de uma morte anunciada” (obra prima!!), “Cândida Erendira e sua avó desalmada”, “ O Outono do Patriarca”, “Doze contos Peregrinos”, “O amor e outros demônios”, “Viver para Contar”, “Como contar um conto”, “Notícias de um seqüestro”, etc.
Gabriel se tornou o amor da minha vida. Acho que devo a ele alguma contribuição pela escolha de ser jornalista. Nunca tive pretensões de ser uma escritora, mas sim de ser leitora. Uma leitora mais apurada, cada vez mais indagadora, profunda. Meu amor por ele é tão grande que dei seu apelido – Gabo – como nome do meu cachorro Boxer (que infelizmente faleceu há 2 anos).
Com G. G. M. tive a sensação de pertencimento a algo. Maior do que o meu pequeno mundinho. Aprendi que antes e acima de tudo sou latino-americana. Tenho minhas dúvidas se sou brasileira. Mas, não tenho dúvidas de que pertenço à América Latina. Não com um orgulho exacerbado, mas por identificação.
Decidi desbravar uma literatura que não é muito valorizada no Brasil, que tem sempre seus olhos voltados d’além mar. Entrei continente a dentro. Fui conhecer Mario Vargas Lhosa, Júlio Cortázar, Borges, Juan Rulfo, Pablo Neruda, Cabrera Infantes, Pedro Juan Gutierrez, Isabell Allende, Antonio Skármeta, Carlos Fuentes, Octavio Paz, Ángeles Mastretta, etc.
Vou indo. Já tive fases da literatura russa, francesa, italiana, alguns americanos, alemã, mas acho que nunca tive uma paixão tão grande por outros escritores como tenho por esses que escrevem sobre essa parte do mundo tão pobre, perversa, miscigenada, dramática, colorida, imaginativa, infantil.
Há tempos deixei de ver e sentir a literatura com todo esse ardor. Talvez, tenha sido a vida adulta, as perdas e dificuldades que vão engolindo a poesia, as mudanças, a saída do casulo. Mais do que pelo filme em si, hoje, nesta simples tarde de verão, tomei contato comigo mesma. Uma que já fui. Não foi algo nostálgico e ruim. Pelo contrário, foi bom saber que mesmo escondido, ainda há toda essa fantasia dentro de mim.
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